terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Inteligencia brilhante , por Rubem Alves


Tive um primo de inteligência fulgurante. Éramos da mesma idade. Aos oito anos brincávamos de soldadinhos de chumbo. Mas seu prazer era um dicionário comparativo de português, francês, inglês e alemão que estava fazendo.
Eu olhava para aquele livro enorme de capa preta, daqueles que os contadores usavam para registrar a contabilidade de firmas, cada página dividida em quatro colunas, uma para cada língua.
Na escola, quando tirava 98 numa prova ele batia com a palma da mão na testa em desespero e dizia: “Fracassei”. Dele jamais se poderia dizer que foi mau aluno. Seu brilho prometia uma vida de vitórias. Adulto, pela manhã, ao levantar, o seu primeiro gesto era ligar a fita da língua que estava aprendendo.
Veio a conhecer doze línguas. Não sei direito para quê. Que utilidade poderia lhe ter a língua húngara? Os benefícios de falar húngaro eram desproporcionais ao esforço de aprendizagem. Como psicanalista, eu pergunto: Será que ele estava em busca da língua desconhecida que lhe permitiria entender a Babel da sua alma?
Na escola, quando tirava 98 numa prova ele batia com a palma da mão na testa em desespero e dizia: “Fracassei”. Dele jamais se poderia dizer que foi mau aluno. Seu brilho prometia uma vida de vitórias. Adulto, pela manhã, ao levantar, o seu primeiro gesto era ligar a fita da língua que estava aprendendo.
Veio a conhecer doze línguas. Não sei direito para quê. Que utilidade poderia lhe ter a língua húngara? Os benefícios de falar húngaro eram desproporcionais ao esforço de aprendizagem. Como psicanalista, eu pergunto: Será que ele estava em busca da língua desconhecida que lhe permitiria entender a Babel da sua alma?
Muitos brilhos são chamas de um coração infeliz. Lançou-se do sétimo andar de um prédio. Não suportou o sentimento de fracasso que lhe deu um discurso – pelos seus critérios, o tal discurso não era merecedor da nota 10.
Matou-se por não suportar a vergonha de um pequeno fracasso. Esse é o perigo de querer ser perfeito. Não conheço nenhum estudo que explore as relações entre genialidade e loucura. Mas deve haver.
Conheci um homem que se vangloriava por ter um QI acima de 200. E trazia sempre consigo a carteira de Membro dos Gênios de QI acima de 200. Acho que para certificar-se de que era inteligente. Quando os outros não concordavam com ele julgava-os burros e ele, um incompreendido. Autoritário.
Quem se julga possuidor de QI 200 e se gaba disso tem de ser autoritário. Não saltou do 7o. andar apesar de ser um chato presunçoso. Não sei onde andará. Suspeito que tenha se mudado para o país dos homens com QI acima de 200.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014


Conto os minutos para poder te ver e abraçar.   
Sei que ainda falta muito. Essa espera não me cansa,ao contrário, me anima.

André, a mãe te ama! 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Carta 1

Nós quatro em cima da cama conversando e rindo, não percebemos a madrugada chegar. A ansiedade pelo novo foi mais forte que o sono.
Com o nootebook em mãos e o google mapas aberto, conhecemos a pequena cidade de Pullman, o destino do André, nosso filho mais velho. Tenho a impressão que os próximos doze meses serão mais longos.

Parece que foi ontem que você fez a inscrição para o Intercâmbio e aguardava ansioso pela resposta. Você se esforçou, correu atrás e não se gabou para ninguém. Antes de ir, quis aprender a fazer bolo, arroz, feijão, macarrão... Ë certo, que ainda não ficou expert em quebrar os ovos, mas tudo bem! Você já está “pronto” para fazer bonito aí fora.
Nunca vou esquecer os dias que eu e seu irmão ficamos doente, com a danada da dengue. Você ajudou seu pai a cuidar de nós e da casa.
Para minha surpresa, as roupas sujas não se acumularam, você me deu o presente de lavá-las. Passou no teste. Obrigada filho, sua gentileza e forma de servir me encantam cada dia mais.

Tenho o sentimento de que o ninho está ficando vazio e me vem à cabeça a ideia de que você está alçando voos cada vez mais altos.
-       Filho, voe, e voe alto!
Veja como é gostoso sentir os bons ventos que os voos nos proporcionam. É verdade que às vezes, os ventos podem ser mais fortes e turbulentos, chegam a fazer um grande barulho e dão até medo. Mas também é verdade que os voos proporcionam ventos brandos, gostosos e magníficos.
Não importa como serão os ventos, o que vale é a sensação gostosa da conquista, da liberdade e realização que cada voo te proporciona.

Enquanto isso, oro e confio que tudo sairá bem.

Espero com alegria a sua volta. Te amooooooooo!


Mãe

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Um ensino, um pensamento, uma conversa e tudo o que incitar o ódio e a vingança é perigoso. É maligno. Fuja disso!


Por Magda

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Piso de caquinhos


Para aqueles que como eu que já tem mais de 40 anos, o texto abaixo é uma viagem ao tempo às nossas antigas moradias.

Num dia desses, fui até uma doceria em Pinheiros que, quando adolescente, frequentava quase que diariamente. Não pude deixar de reparar no piso original e na pia do banheiro, ambos feitos com caquinhos de cerâmica.
Ah, que delicia rever aquilo! Até consegui sentir o cheiro bom de quase trinta anos atrás, onde eu e minhas amigas do Banco, jogávamos conversa fora nos nossos restritos 30 minutos de almoço, saboreando a saltenha maravilhosa que até hoje esse lugar faz.

Em algumas das casas que morei, tinha o tal piso e minha mãe fazia questão de vê-lo brilhando com uma camada generosa de cera vermelha onde eu e minha irmã dávamos o acabamento, lustrando com o esfregão, e depois escorregando divertidamente com nossas roupas de ficar em casa  até ouvir minha mãe dar um grito mandando a gente parar com aquilo. 
-       Essa brincadeira vai dar pelo nariz! - gritava ela.

Na casa da minha tia Elza, também tinha o tal piso no quintal, lembro bem, porque era lá que ela colocava as crianças para sentarem e comerem o doce de leite condensado fervido na panela de pressão.
Lembro também dos "caquinhos" na igreja que frequentava. Era praticamente impossível pisar no chão sem reparar na gigante metragem daqueles caquinhos vermelhos, revestindo o chão onde brincávamos de pega-pega e esconde-esconde após os cultos.
Num dia, me escondi em cima de uma Perua Kombi e ninguém me achava. Como o estacionamento era escuro, o dono da Kombi, não me viu, deu a partida e começou a manobrar, dei um salto e quase morri de susto.

Caquinhos vermelhos fazem parte da história de muita gente e por isso, achei interessante compartilhar  esse texto que achei e me maravilhei com seu conteúdo. 

Espero que goste. Boa leitura.

                                      Piso de caquinhos  



Pode algo quebrado valer mais que a peça inteira? Aparentemente não, mas no Brasil isso já aconteceu isso!

Tudo começou nas décadas de 40 e 50. A cidade de São Paulo era servida por duas indústrias de cerâmicas principais. Um dos produtos dessas empresas era um tipo de lajota quadrada produzida nas cores vermelha (a mais comum e barata), amarela e preta, que eram usadas para pisos de casas de classe média ou comércios.

No processo industrial da época aconteciam muitas quebras e todo esse material perdido e sem interesse econômico era recolhido e enterrado em grandes buracos. E naquele tempo os lotes dos operários eram totalmente cimentados com sua monótona cor cinza, pois os mesmos não tinham dinheiro para comprar as lajotas que eles mesmos produziam e com isso, cimentar o quintal era a regra.

Certo dia, um dos empregados de uma das cerâmicas e que estava terminando sua casa não tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da fábrica, caminhões e caminhões por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da fábrica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimentação do terreno de sua nova casa. Claro que a cerâmica topou na hora e ainda deu o transporte de graça pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposição.

Agora a história começa a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cerâmicos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos também. O operário ao assentar os cacos cerâmicos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho contínuo. É, a entrada da casa do simples operário ficou bonitinha e gerou comentários dos vizinhos também trabalhadores da fábrica. Ai o assunto pegou fogo e todos começaram a pedir caquinhos o que a cerâmica adorou pois parte, pequena é verdade, do seu refugo começou a ter uso.

Depois disso, o piso de caquinho virou moda e saiu até nos jornais! A classe média adotou a solução do caquinho cerâmico vermelho com inclusões pretas e amarelas. Como a procura começou a crescer a diretoria comercial de uma das cerâmicas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender os cacos a um preço baixo. Depois disso a mania cresceu e cresceu! E começou a faltar caquinho... Foi quando as empresas começaram a quebrar as lajotas para obterem mais caquinho e o preço ficou até mais caro que as lajotas inteiras!

A história termina nos anos sessenta com o surgimento dos prédios em condomínio e a classe média que usava esse caquinho foi para esses prédios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores ou foram morar em favelas.

São histórias da vida que precisam ser contadas para no mínimo se dizer: 
– A arte cria o belo, e o marketing tenta explicar o mistério da peça quebrada valer mais que a peça inteira…

(A História foi contada por Manoel Henrique Campos Botelho, Engenheiro Civil e autor da coleção “Concreto Armado Eu te Amo”)  

segunda-feira, 16 de junho de 2014

'Seu' Gersom

Lá vinha ele subindo a rua, todo arrumadinho vestido num terno verde claro - acho que o tom era mais para um verde oliva! Passou por mim, estava parada na calçada aguardando o Eduardo chegar no transporte escolar, e deu uma olhada para trás, voltando em seguida para puxar conversa. 

- A senhora é a proprietária da casa? 
Sou sim! Respondi, reparando que o homem era bem menor do que parecia, acho que não passava de um metro e meio de altura. 
- Nossa! É a primeira vez que vejo esse portão aberto! Disse ele e foi logo sacando um cartãozinho do bolso do terno. 
- Sou jardineiro! Tem jardim ai? 
- Tem sim, pequeno mas tem. O senhor quer dar uma olhada? 
Ele veio ligeiro e colocou a cabeça dentro do portão. 
Reparei no jeito carinhoso com que passou as mãos sobre as plantas e foi falando o nome de cada uma delas. Era mesmo um jardineiro, pois não só acertou os nomes das plantas como as olhou com olhar carinhoso, cheio de admiração. 
Me deu uns toques para deixá-las mais vistosas e arriscou ao dizer: 
- Se a senhora quiser eu posso vir amanhã para limpar seu jardim. 
Respondi  que estava interessava nos seus serviços, mas antes teria que programar o serviço, precisava comprar novas plantas, sacos de terra e ter a certeza de que o meu jardineiro não poderia vir (esse então é um figuraça! Gosto demais dele, e num outro texto falo sobre ele).   
Para não deixar dúvidas, descreveu seu curriculum e deu ênfase nos clientes que tem.

Gersom com "m" no final é o nome dele. 
Garantiu que tem mais de 74 anos. Não parece! Conserva um rosto de garoto, acho que é por causa dos cabelos penteados para o lado (tive a impressão que conserva o mesmo penteado desde quando era garotinho).  

Combinei  que entraria em contato quando fosse preciso e ele foi andando rumo ao seu destino, disse que ia à igreja. Conforme ele andava pela rua, conversava e cumprimentava todo mundo. Percebi que ele é conhecido e querido pelos vizinhos. Seu Gersom parece ser uma pessoa feliz, transmitiu isso, pois conhecê-lo me deixou feliz também.

Eu acredito que transmitimos o que somos às outras pessoas em gestos simples, como por exemplo, numa simples conversa. Aliás, acredito muito em conversas, pois é um meio eficaz de ouvirmos as palavras e o coração das outras pessoas. 

Eduardo chegou, dei um beijo nele e entramos. 
Preparei o jantar, mas meu pensamento estava nele, no seu Gersom.
Saiu um riso da minha boca e mais uma vez tive a certeza: 

A felicidade está em momentos vividos por aqueles que encontraram sentido naquilo que é simples e ao mesmo tempo tão nobre, como por exemplo, cuidar de jardins, preparar um jantar gostoso, ver o filho chegar da escola…

Meu cotidiano, 
por Magda Rodrigues 


Quem não planta jardim por dentro,
não planta jardins por fora
e nem passeia por eles
Rubem Alves